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jul
27

Amplificadores e Organicidade

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Amplificadores e Organicidade

por Guilherme Petrochi – Engenheiro de Som Vision Acoustics

Artigo originalmente publicado na revista Áudio&Vídeo n°150 (outubro de 2009) – PDF download


Minha formação em eletrônica aliada à paixão pelo áudio sempre me apontou uma simples questão: Somos capazes de avaliar a transparência, a dinâmica, respostas de transientes e demais características subjetivas. Como qualificar uma audição através de características técnicas?

Não perdi tempo, depois de virar madrugadas fuçando uma infinidade de sites sobre o assunto, posso dizer que percorri o mundo inteiro via internet e terminei minha jornada adquirindo também alguns livros bem específicos (graças ao Amazon) para me aprofundar mais um pouco na questão. Além disso, trabalhar diretamente com áudio me possibilitou ter acesso a muito material impresso e o melhor de tudo, poder acompanhar e apreciar muitas audições: sejam avaliações de sistemas no trabalho, medições em salas de clientes ou simplesmente ouvir boa música para relaxar com os amigos, a gente sempre tem a oportunidade de conhecer os mais diversos tipos de equipamento e sentir a alma de cada um. Assim a resposta para o que parecia uma simples questão, deu conteúdo de sobra para este artigo.

Sabemos que ajustes finos através da escolha da marca dos componentes, fiação interna, material das placas e do chassi são fatores que contribuem na sonoridade final do amplificador. Além disso, há uma complexa base teórica da engenharia na qual vamos nos adentrar.

O Projeto

A sonoridade está diretamente relacionada com o tipo de componente ativo utilizado (válvula ou transistor) e a filosofia de projeto (linearidade ou simplicidade). A primeira adota técnicas avançadas de engenharia e conseqüentemente circuitos de alta complexidade. A segunda baseia-se na utilização do menor número possível de componentes no circuito de amplificação.

Filosofia da linearidade

Amplificadores que seguem a filosofia da linearidade soarão mais “transparentes”. Transparência é sinônimo de distorção baixa, principalmente de harmônicos de 2º ordem, possível somente em estágios de saída Push-Pull. Essa afirmação nos leva a pensar que praticamente todos amplificadores transistorizados são “transparentes”, pois 99% deles são Push-Pull. Na verdade, vários outros fatores influenciam na linearidade do amplificador. Existem pelo menos dez tipos de circuitos Push-Pull, grande variedade de transistores e técnicas de redução de distorção, como a polarização (Classe-A, B e AB) e a Realimentação Negativa.

A Realimentação Negativa, técnica na qual parte do sinal de saída é usada para reduzir distorções, ganhou má reputação ao longo do tempo, principalmente na audiofilia.

Essa injustiça aconteceu porque os primeiros amplificadores transistorizados usavam altas taxas de Realimentação Negativa e tinham sonoridade inferior a dos valvulados da época. A péssima qualidade sonora não era resultado apenas da elevada realimentação, mas sim da falta de conhecimento dos novos dispositivos (transistores) e de como utilizá-los. Mesmo assim, devido ao baixo custo de produção a venda de amplificadores transistorizados superou a dos valvulados.

Com a experiência adquirida ao longo de 50 anos de amplificação transistorizada, a Realimentação Negativa, quando bem implantada, tornou-se fundamental a todo amplificador de excelente linearidade.

A Classe de Operação é outro fator que tem grande influência na linearidade do amplificador. Os Classe-A têm a menor distorção possível, pois são os mais eficientes na redução da distorção de harmônicos de alta ordem.

Contradizendo a engenharia convencional, sabe-se que a segunda melhor Classe de Operação é a B e não a AB, criada para eliminar a problemática Distorção de Transição inerente ao circuito Push-Pull em Classe-B. Em amplificadores Classe-AB, a passagem abrupta da região A para B gera distorções inexistentes nos amplificadores Classe-B cuidadosamente projetados. A Distorção de Transição é responsável por apenas parte da Distorção Total do amplificador, portanto, se eliminadas todas as outras componentes e o estágio de saída ficar rigorosamente estabilizado em Classe-B, este amplificador apresentará menor distorção que um Classe-AB convencional.

Krell, Plinius, Cambridge Audio, Audiolab são equipamentos com baixíssima distorção que seguem a filosofia da linearidade. Algumas pessoas consideram sua sonoridade “fria” ou “sem vida”.

Filosofia da simplicidade

Em contraposição à linearidade, a filosofia da simplicidade ganhou espaço no mercado High-End.

A origem conceitual da Alta Fidelidade data de 1934, quando W. T. Cocking estabeleceu que a distorção máxima tolerada em um amplificador de qualidade seria 5%. Todos os esforços em diante foram voltados para obter a menor distorção possível. Fabricantes como Quad e McIntosh obtiveram resultados notáveis no final dos anos 40: cerca de 1%. Nos anos 70, alguns fabricantes conseguiram chegar em 0,05%, valor bem abaixo do que somos capazes de perceber (0,1%). Agora temos amplificadores com distorção abaixo de 0,001%, mas deixemos este detalhe como caráter informativo apenas.

Sobre o assunto vale relembrar: A Distorção Total de um amplificador é composta pela distorção de vários harmônicos. Harmônicos de alta ordem distorcidos, mesmo que em pequena quantidade, podem fazer um amplificador soar extremamente desagradável, enquanto que altos níveis de distorção de harmônicos de baixa ordem podem fazê-lo soar com maior “naturalidade”.

Durante os anos 80, no Japão, e 90 no resto do mundo, os audiófilos passaram a reconhecer e valorizar os amplificadores Single-Ended valvulados. A distorção desse tipo de amplificador é proporcional ao volume e costuma chegar aos 5% na potência máxima. No entanto, ela é composta essencialmente pela distorção de harmônicos de 2º ordem, responsável pela impressão de naturalidade.

Os fabricantes: Kondo, Audio Note, Cary, Unison Research, Air Tight, Lamm e Audiopax, tornaram-se referência entre amplificadores Single-Ended valvulados. Entre os transistorizados destacam-se: Pathos, EAR e Blue Circle.

Fabricantes de amplificadores Push-Pull transistorizados como: Pass Labs, Pathos, Dartzeel, Bow Technologies… também são adeptos da filosofia da simplicidade. Essa filosofia é relativamente recente e desconsidera a tentativa de reduzir ao máximo a distorção, uma vez que se acredita ser desnecessário mantê-la muito abaixo do que podemos perceber. O amplificador destina-se à reprodução de música e deve agradar ao ouvinte e não a equipamentos de medição em laboratórios.

Anúncios e especificações técnicas de alguns fabricantes orgulhosamente declaram não usar a Realimentação Negativa, técnica padrão de redução de distorção, consolidada há mais de 80 anos.

Conclusão

Dizer qual tipo de amplificador soa melhor é impossível, pois os propósitos das duas filosofias são distintos. Além disso, a associação com os diversos tipos de caixas acústicas, pré-amplificadores, fontes sonoras, cabos e acima de tudo o gosto pessoal, são fatores que impossibilitam um consenso. Há também o caso de fabricantes que conseguem unir virtudes das duas filosofias como: Jeff Rowland, Naim, Accuphase, Sphinx, Gamut, Electrocompaniet, Bryston…

De modo geral, amplificadores extremamente “transparentes” (filosofia da linearidade) reproduzem os detalhes da gravação com maior precisão, no entanto tornam a audição de discos mal gravados inviável. Já os amplificadores mais “naturais” (filosofia da simplicidade) são mais tolerantes quanto à qualidade da gravação, porém limitam o detalhamento de gravações excelentes.

Categories: Amplificação

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